sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Vídeo_Motivacional_Emoções

Análise_Vitórias


Sobre vitórias e derrotas

A Copa acabou e a Seleção Brasileira perdeu antes mesmo de chegar às semifinais, deixando um país inteiro debatendo as razões do fracasso de um time que tinha tudo para ser vitorioso. No cotidiano nem sempre é fácil entender o que é ganhar e o que é perder. Avalie melhor esses conceitos e descubra como você está no jogo da vida
Ai de quem perde!_Onde é o topo?_Quebre o círculo_Vitórias reais_O limite de cada um_Crie sua tabela_Vencer, perder, viver

O sabor da derrota é amargo e se alastra pelo corpo.
Olhos vagos ardem, músculos estancam, gestos endurecem, cristalizados. Palavras engasgam, enquanto cenas da capitulação voltam em flashes. O pulmão pára de respirar. E a cabeça, puf!, parece que vai cair a qualquer momento. Que difícil de acreditar! Quando o escrete canarinho vacilou diante da França ¬ e saiu de campo derrotado nesta Copa de 2006 ¬ foi um déjà vu danado: parecia que o Brasil voltara oito anos no tempo, e lá estávamos nós, perdendo mais uma vez.Tudo se misturou na memória. Os lances certeiros e cruéis de Zidane, um novo algoz chamado Henry e mais um grupo de astros do futebol sem explicações. Afinal, não somos os melhores do mundo? O que falta, enfim, para jogarmos tudo o que sabemos? Sabemos dar um show?


Com um peso no peito, sem achar conforto, uma idéia surgiu em meus pensamentos. Havia acabado de escrever esta reportagem, sobre como ganhar e perder faz parte da vida e o quanto podemos aprender em ambas as situações. E ainda: toques para sabermos se estamos ganhando ou perdendo na tabela de sonhos e anseios que almejamos para nossa história, que está sendo escrita o tempo inteiro, todos os dias. Será que o texto, enfim, tinha algo de valor, de prático? Porque, se assim fosse, deveria trazer alguma reflexão até mesmo para as inconsoláveis dores de futebol ¬ sem falar nas de amor, que mereceriam uma categoria à parte, hors-concours. Corri para o computador e, enquanto a máquina inicializava, dei uma boa suspirada ¬ ah, esses franceses!
Hum, ligou. Abrir documento...

Momento nostalgia.Você vai precisar de uma caneta ou lápis. Marque (x) quando foi vitorioso e conseguiu algumas das doces conquistas abaixo. E pinte (•) quando perdeu a vez:

( ) Campeonato de bolinhas de gude contra os meninos da outra rua.
( ) Completar um álbum de figurinhas, com a carta premiada.
( ) Ser da seleção de futebol, vôlei ou basquete do colégio ¬ na reserva também vale.
( ) Beijar a(o) garota(o) mais bonita(o) da última série.
( ) Conseguir passar direto em todas as matérias, sem recuperação.
( ) Acertar as três argolas e ganhar a prenda mais legal da festa junina.
( ) Finalmente entender as aulas de física e conseguir fazer as provas.

Pois é, a vida da gente, desde cedinho, é cheia de momentos que se fixam em nossa memória.Tem de tudo um pouco: o chocalho no berço, o primeiro dia de aula na escola, o sorriso de um novo colega, a excursão para pescar em um ônibus apertado, o prato de família saindo do forno... Independentemente do valor afetivo, parte de nós funciona igual aos computadores. E lá vamos classificar cada um desses fatos como algo bom ou algo ruim, mediante um pouco de tudo: nossos próprios juízo e gosto, elogios familiares, broncas professorais ou, simplesmente, o olhar dos outros. E aí, em 99,9% dos casos, não tem ninguém (sejamos sinceros, por favor) que se vanglorie por uma derrota, certo? “Em uma sociedade extremamente competitiva, somos estimulados a ser os melhores, a ser os vencedores já na infância”, comenta o psicanalista paulistano Tiago Corbisier Matheus. Imagino: eu tenho até um amigo que me contou que, quando ele nada pela manhã, compete arduamente em silêncio com os que treinam nas outras raias.

Há uma verdadeira obsessão pela vitória em nossa mentalidade e sociedade. Chegar em segundo lugar? Nem pensar! Para começar, em uma sociedade aguerrida e bastante seletiva como a brasileira, esse tal segundo lugar pode significar não conseguir um emprego, não receber uma promoção. Ou mesmo não obter uma vaga no colégio ¬ existem alguns, nas maiores capitais brasileiras, que têm uma prova de admissão, um verdadeiro vestibulinho. A vida é incerta, sim, e cheia de desafios, vários deles monetários, e muitos pais projetam suas frustrações nos filhos, querendo que eles sejam ou conquistem o que não conseguiram. “É o famoso ‘meu filho vai chegar lá, aonde não cheguei’”, afirma Corbisier Matheus. “Acabamos por enxergar o mundo de forma dicotômica. No topo, existem os vencedores, ou os winners, pelo modelo americano de comportamento, e todo o resto de perdedores, ou os losers, os zeros à esquerda, que não conseguem nenhum destaque na vida social”, complementa o psicanalista. Puxa, você deve estar comentando: “Mas é claro, não é? Como e por que eu iria comemorar uma derrota?” Calma, mais alguns parágrafos de conversa e chegamos lá.

Ai de quem perde!

Além da necessidade real de conseguir um lugar ao sol, sempre queremos conseguir o que queremos, do jeito que for. O jeitinho brasileiro é um típico comportamento tinhoso, em que se busca ganhar a todo custo, sem pensar nas conseqüências. E mais: o brasileiro nem percebe que usa o tal jeitinho o tempo todo. Isso porque o brasileiro promete, promete, mas não faz. Diz que sabe fazer, mas não sabe. Força a tinta nos currículos, deixa trabalhos para a última hora (ai, ai, desse mal este repórter confessa que sofre, e muito). Enfim, leva com a barriga. “Um jeito foi dado uma vez, e com isso uma forma de resolução foi obtida. E assim as cartas são lançadas repetidas vezes”, diz o antropólogo Roberto DaMatta no livro O Que Faz o Brasil, Brasil? É de pensar se os nossos nobres administradores dos órgãos públicos não padecem desse estilo. Ou até a nossa querida Seleção, que a olhos leigos pareceu ser assim, um grande improviso, contando apenas com o talento dos craques. Nesse caso, não vai ser dessa vez que teremos nosso conforto social. Não só aqui, mas em muitos países, a vitória da seleção nacional tem muitos usos. Em 1970, o tricampeonato amarelinho enfraqueceu o descontentamento de um povo subjugado por uma ditadura militar. Oito anos depois, ocorreu o mesmo na Argentina, que fez de tudo para ser campeã, com casos comprovados de suborno a atletas adversários. Já em 1998, do lado de lá da vitória, a França viu o país melhorar sua auto-estima em um ano crucial: a integração com a Comunidade Européia.

Por toda essa angústia, os perdedores são malvistos pela sociedade. Até hoje, quando se revêem as imagens falhadas, em preto e branco, quase não se vê por onde a bola passou quando o Uruguai marcou o segundo gol. Para Barbosa, goleiro da Seleção Brasileira na final da Copa de 1950, essa bola nunca parou de passar.

Responsabilizado pela derrota brasileira e pelo trauma do país ao perder o título em casa, em pleno Maracanã, o excelente goleiro nunca mais foi lembrado por nenhuma de suas defesas ¬ e sua biografia parece não constar em lugar algum. Parece apenas existir esse segundo gol, e nada mais. Contase à boca pequena que muitos anos depois Barbosa ainda era reconhecido nas ruas e mercados e apontado como o homem que fez o Brasil inteiro chorar. O piloto Rubinho Barrichello, então, tem um único pecado: não trouxe nenhum título ao Brasil e sofre zombarias apesar de anos e anos pilotando entre os melhores do seu tempo. Mas isso, além de trágico, foge um pouco da realidade, não? Afinal, ter perdido o concurso de pipas no parque da sua cidade fez de você alguém pior? Assim como entre o preto e o branco existem múltiplas tonalidades de cinza, entre o que chamamos de derrota e vitória... Bem, há muitas formas de encarar a questão.

Onde é o topo?

Quer ver um só exemplo onde vencer não é o que parece? Antes disso, olhe só que interessante este outro teste a seguir. Sendo bastante sincero, eu mesmo fiquei com (•) em todos os itens. Pudera, dessa vez a lista bate lá no topo das conquistas que mostram estabilidade e sucesso no jogo capitalista. Será que você já tem alguns (x)? Se está quase lá, se dê um desconto. Qualquer traço de semelhança com o que tem já vale assinalar o item, ok? Veja:

( ) Carro do ano, moto novinha, bicicletas iradas e uma prancha pronta para o surfe.
( ) A casa própria, não importam o tamanho e a localização.
( ) Ser chefe da equipe, ganhar melhor que a turma e ainda ir embora mais cedo.
( ) Casamento estável, crianças alimentadas, animais de estimação.
( ) Pós-graduação, mestrado, avanços acadêmicos, treinamentos no exterior.
( ) Férias todo ano, dessas de viajar por um mês por praias desertas.
( ) Claro, por que não?, uma casa na praia, na beira do mar.

Sim, com certeza a lista é difícil e de propósito. Para os que estão distantes de preenchê-la, ela pode parecer um ideal de vida nada simples e até exagerado. Por outro lado, tem muita gente que conseguiu algo semelhante, equivalente, ou que já batalha anos e anos para conquistar alguns dos itens, sem nunca abandonar o jeito simples de viver ¬ “Eu quero uma casa no campo”, também cantava a saudosa Elis Regina. É o que praticamente Marvin Kundera (o nome, o cargo e a empresa foram alterados para preservar a identidade do entrevistado, em busca real de caminhos) tem, mesmo sem sair da capital paulista. Gerente comercial de uma gigantesca empresa nacional de alumínio, Marvin marcou sem pestanejar (x) em toda a lista e assim o faria até se a lista fosse 50% maior ¬ ou mais! Sua casa, em um bairro afastado do centro, é espaçosa, com múltiplos andares e uma grande varanda, igual a um deque de madeira, debruçada sobre uma intocada área verde.Mas se você já está imaginando Marvin como um cara de bem com a vida, não é nada disso. “Deixei de aprender onde estou. Depois de implementar muitas inovações ¬ e quebrar a cabeça com isso ¬, agora o meu setor dentro da empresa navega estável, sem novidades. Estou parado, insatisfeito”, conta o executivo. “Sem desafios, me sinto o cara errado na hora e no lugar errados. Por isso, busco mudanças.”

Enquanto se enfurna em sua oficina pessoal e reforma calmamente uma moto antiga, Marvin pensa no futuro com o olhar atento de quem conseguiu vantagens materiais, porém não se apega a elas. Perguntado se o que ele quer, na realidade, é subir mais e mais na carreira, ele refuta: “Isso é impossível. Sempre haverá um cara melhor que você, ganhando mais, acima da sua posição. Seguir esse caminho não leva a nada. A mudança que busco é para descobrir, de verdade, o que me satisfaz, o que me traz dinamismo. E só”.
Quebre o círculo

Vencer por vencer, conquistar por conquistar? Afinal, até onde isso pode ir? Para as cadeias de fast food, sempre temos o funcionário do mês (foto com aquele sorrisão escancarado, claro!), que muda logo no outro mês. Em academias de ginástica, o professor da semana (sim, também muda constantemente). Até em cabeleireiros está lá a tesoura de ouro do mês (habilíssima e, por isso, um pouco mais cara). Claro, desculpe, como esquecer: nos Big Brother da vida, sempre temos o líder da semana. Nas agências, quem vende mais ganha mais ¬ e luta com os colegas do lado para vender mais ainda. Atores e atrizes, quando em voga, gravam comerciais, fazem peças de teatro, estão na novela das 8, se preparam para a próxima minissérie, aproveitam para ter três ou quatro namoros rápidos, sem falar nas jornadas fotográficas para inúmeras revistas. Profissionais do marketing nem param para pensar: quando na crista da onda, é livro, palestra, vídeo, conferência...

Mas é nos campeonatos de basquete americanos que os limites dessa história avançam mais e mais. A premiação parece não ter fim de uns tempos para cá, e não só o cestinha do jogo tem sido aclamado. Há o assistente, o reboteiro, o cara que faz bloqueios, o matador de três pontos, ih!, é uma lista grande, em expansão, que serve a todos que querem ver seu trabalho reconhecido. E leia-se reconhecido por, além de dar boas enterradas, aparecer na TV, dar retorno ao patrocinador e vender camisetas com seu nome. Poucos são os que vão construindo a carreira de forma mansa, passo a passo ¬ isso em todas as áreas. Ou que sabem que, após um ciclo positivo, pode vir outro menos produtivo. E depois, como a natureza, alternâncias, transformações e, por fim, outros e outros ciclos bemaventurados... “Na vida, ocorre um processo evolutivo que pode oferecer mil derrotas com o intuito de que você chegue à única e verdadeira vitória, aquela sobre si mesmo, sobre o seu excesso de individualidade”, diz Jo Azer, mestre da arte marcial vajramushti. Com mais de 38 anos dedicados a essa arte, o vigoroso lutador sessentão cita um antigo pensamento sobre o tema, que muito lhe agrada: “Um verdadeiro homem trata uma pepita de ouro e um pedaço de carvão como a mesma coisa. O ouro ele gasta e o carvão ele queima”. Assim, a derrota não deveria deixar o travo tão amargo na boca que freqüentemente tem. Nem a vitória ser tão doce e saborosa, como pode parecer.

Vitórias reais

Vale a pena deixar de ver as vitórias como os primeiros lugares no pódio. Por quê? Para que possamos saborear nossas verdadeiras vitórias, dentro de nossos limites reais, e na superação deles.Para tal, os sonhos de grandeza não ajudam. “Basta ter os pés no chão para poder vencer de verdade”, diz Osmar Rosseto Bambini Filho, corredor de aventuras. Aos 33 anos, Osmar trabalha na distribuidora de produtos de higiene e beleza da família. Mas se dedica a treinos diários de três horas para estar pronto a se jogar com sua equipe em aventuras para lá de radicais, corridas que duram 24, 48 horas ou até mesmo uma semana, nas quais remam, pedalam, escalam, correm. E passam frio, fome, sono, cansaço, dores em todas as regiões do corpo. Além disso, Osmar sabe que sua equipe, a NexCare3M Senta a Pua, está entre as do segundo pelotão. “Só chegamos na frente das grandes quando algo de errado acontece com elas”, diz. E chegar na frente pode ser o último dos objetivos da Senta a Pua. Na última prova Ecomotion Pro, umas das mais difíceis desse tipo ¬ e a mais árdua ocorrida no Brasil ¬, Osmar e seus amigos ultrapassaram seus limites a ferro e fogo. “Nos perdemos, corremos risco de vida, estávamos machucados. Chegamos em um suadíssimo último lugar.Mas chegamos! Há três anos tentávamos ver a linha de chegada e nada. Parávamos por muitos motivos. Quando conseguimos, bem próximos ao tempo limite para a classificação, foi uma choradeira só. Tiramos o peso dos ombros, sentimos o senso de dever cumprido. Se fomos os últimos na prova, não teve a mínima importância”, diz Osmar.

Assim é também para o fotógrafo de Brasília Dalton Camargos. Sua maior vitória não vem em momentos de estripulia, mas em cada clique, em cada foto, que ele continua a tirar diariamente. Uma rara infecção se alojou em sua medula seis anos atrás. Em plena sexta-feira de Carnaval, ele se viu sem seus movimentos do pescoço para baixo a caminho de uma cirurgia difícil, em que os médicos drenaram todo o líquido de sua espinha vertebral. “A partir daí, não se sabia o que iria acontecer. Acordei ainda paralisado, mas com uma remota chance de recuperação”, conta ele. Em dois meses, Dalton reaprendeu boa parte dos movimentos. Depois, ao fim de um ano, recuperou uma coisa de cada vez: andar, correr, sentar, pegar objetos, escrever, dirigir. Inclusive fotografar. “De certa forma, perdi tudo e depois ganhei quase tudo. Pois algumas lesões mínimas ficaram. Perdi um pouco da habilidade da mão esquerda e, por isso, tive que reaprender a manejar todas as minha máquinas fotográficas.”O que não fez Dalton parar. Todos os dias, lá vai ele. “Agora, bem mais consciente da fragilidade da vida, o que eu ganhei foi sensibilidade no olhar.”

O limite de cada um

Vamos lá, você está num dia ruim. Levou broncas no trabalho, brigou feio com a(o) nova(o) namorada(o) bonitinha( o), o seu filho te acha um(a) chato(a) e se tranca no quarto. Pequeninos contratempos que levam, todos juntos, a se sentir com um carimbo na testa que diz “derrotado( a)”. Que bom, a derrota nesses ciclos da vida tem muita utilidade. No caso acima, ela vai mostrar que você tem limites e que nem sempre o seu melhor é o suficiente para acertar uma situação. Serve também para quando você participou da concorrência interna em busca da vaga dos seus sonhos. E, na última peneira, você não passou. De novo, outra lição dos dias ruins: os outros também têm valor. Que tal ver as qualificações de quem ganhou a promoção e buscar se aperfeiçoar? Tirando a ansiedade e a vontade de viver e resolver tudo de uma só vez, outro ensinamento da perda é perseverar. Ainda não fez as pazes com o vizinho após a festa de arromba? Insista um pouquinho. Aí, não é bacana? Aprender limites, reconhecer o outro, perseverar. Seriam as derrotas o caminho do zen?

Continuemos no mesmo cenário. Os dias passaram, você foi elogiado pelo chefe, o namoro decolou que só e seu filho te comprou um presente ¬ e ainda quer que você vá a um show com ele. Veja só: o que antes era um limite agora não é. Superar limites são sinais de vitória, sim. Quer mais? Teve outra seleção até para uma vaga melhor.

Lá foi você, perseverante, confiante em si depois de estudar umas coisinhas aqui e acolá. Bingo! Novos desafios, aumento no bolso, sorrisão, auto-estima encostando no céu! E não é que você tem crédito, rapaz? Para terminar, o vizinho fez as pazes, sim, mas ainda não liberou o prédio para outra festa.Vai ter que ser dia após dia, uma atitude constante, realista, pé no chão. Mas você bem que já pode comemorar, não? Superou limites, aprendeu seu valor, mas se manteve realista, sem nariz empinado ou pose de general. Taí, as vitórias também ensinam. E não é pouco.

Crie sua tabela


Hum, então vitórias e derrotas não vêm necessariamente dos pódios e campeonatos. Interessante. Como saber, então, se estamos indo bem na nossa tabela pessoal, na que tem o verdadeiro valor? Vai depender muito ¬ parece até chavão ¬ do modo como você pensa. Para a escritora Lya Luft, “ganhar não é algo material, evidente, mas algo como esperança, otimismo, alegria, experiência e maturidade”. Já para o senador Eduardo Suplicy, que neste ano irá concorrer ao cargo novamente, “qualquer derrota nunca pode abater, apenas ensinar a perseverar por seus ideais. As vitórias, por outro lado, nunca podem subir à cabeça. Depois delas, você continua sendo um ser humano normal, com responsabilidades até maiores”. Podemos, então, deixar de ver como perdas e ganhos as marcas da infância e adolescência, assim como a luta que temos para conquistar uma estrutura para viver? Claro que não.Vale a pena acrescentar outras questões para nossa evolução pessoal.Aproveite a caneta que está ao seu lado e faça mais este teste:

( ) Aprendeu a ter paciência com sua família.
( ) Já não cobra tanto dos outros, mas busca aperfeiçoar a si mesmo.
( ) Sabe se virar sozinho nesta vida, sem choro nem vela.
( ) Consegue expressar seu afeto pelos amigos, amores e afins.
( ) Banca seus sonhos e não se deixa acomodar.
( ) Ouve seu coração vez ou outra e sabe se fazer feliz.
( ) Estuda seus limites e trabalha para ultrapassá-los com sabedoria.
E não é que este teste não é tão fácil de responder? Neste ponto da história, mais valor terá uma lista, e um teste preparado apenas por você,o único capaz de, com isenção, dizer onde está no seu jogo da vida. Claro, você já deve ter percebido, mas não custa repetir. Ao mesmo tempo em que se ganha, às vezes também se perde. O exemplo mais clássico do mundo é este: quem está casado em alguns momentos olha com uma ponta de inveja o primo solteirão, baladeiro. E ele, que cai na gandaia, tem dias que acorda querendo mesmo é estar ao lado de uma doce esposa. Mas o planeta ensina um pouco a mais sobre isso, sem nenhuma ansiedade de ter tudo ao mesmo tempo agora.

Para os biólogos evolutivos, nada se perde nem se ganha. Uma certa árvore, que lança mil sementes ao vento para reproduzir sua espécie, tem apenas três ou quatro dessas sementes aproveitadas, sementes que conseguem vingar e crescer. As outras, os passarinhos comem, os insetos devoram e até os esquilos beliscam ¬ fora o solo, que digere algumas como nutrientes para outras espécies. Perda quase total? Para a teoria de Géia, que defende que a Terra é um organismo vivo, a conta que a árvore faz é outra: sementes a mais para doar aos pássaros, aos insetos, aos roedores e ao solo. Ela colabora com as espécies, que por seu turno também colaboram com a árvore de outras formas. E por aí vai.

Vencer, perder, viver

Ah, sim, o sonhado hexa... Existe algum consolo? A perda do sexto título mundial pode não ser algo tão dramático se deixarmos de lado nossa própria euforia e as idéias de título fácil vendidas em exorbitantes campanhas de marketing.Vencer a todo custo e sempre? Pois é, já sabemos que não é bem assim. Só para pensarmos mais um pouquinho: craques campeões em seus times e em suas carreiras, como Leônidas, Barbosa, Ademir da Guia, Leão, Zico, Sócrates, Valdir Perez, Falcão, Casagrande, Roberto Dinamite e o maestro Telê Santana, entre muitos outros, por mais que tenham suado a camisa brasileira nunca levantaram o caneco. Ninguém duvida que cada chute deles, dividida, pênalti perdido, bola na trave, defesa, nossa!, tanta história em campo, tudo isso tenha feito e construído junto aos que levantaram a taça cinco vezes uma glória maior que as vitórias: uma nação que ama o futebol. Como na vida, o nosso valor não mora nas vitórias e nas derrotas, tão efêmeras, mas sim nas estrelas que carregamos dentro do peito. Afinal, o coração teima em bater, haja o que houver. Na vitória e na derrota.

Para saber mais

Livros:
• Perdas e Ganhos, Lya Luft, Record
• O Herói de Mil Faces, Joseph Campbell,Cultrix/Pensamento
• O Poder do Mito, Joseph Campbell, Palas Athena
Filmes:
• Ponto Final, Woody Allen, 2005
• Estrela Solitária, Win Wenders, 2005
• Flores Partidas, Jim Jarmusch, 2005
• Mar Adentro, Alejandro Amenabár, 2004
• Menina de Ouro, Clint Eastwood, 2004

Fonte: Revista Vida Simples

Vídeo_Motivacional_Escolhas

Análise_Culpa


Transferência de culpa

Pergunta da leitora Paola Penedo: “Por que algumas pessoas insistem em colocar a culpa dos problemas que acontecem em suas vidas nos outros, em vez de assumir a responsabilidade?”

Você é meu inferno; Inocente ou impotente? Confessando as culpas

No começo do século 17, os habitantes da região italiana da Toscana já estavam se acostumando com as esquisitices de um sujeito chamado Galileu Galilei. Ele era bamba em matemática e física e andava obcecado por entender os mistérios do Universo. Uma passagem curiosa a seu respeito é aquela em que ele subia a torre inclinada de sua cidade natal, Pisa, e ficava jogando coisas de tamanhos e formas diferentes, tentando entender por que e como caíam. Diz a lenda que, após uma dessas experiências, Galileu observava pensativo os restos de um ovo estatelado na calçada da praça dos Milagres quando foi interpelado por uma velhinha que lhe perguntou o que estava fazendo. “Estou tentando entender por que este ovo caiu da torre”, disse ele. “Eu sei por que ele caiu”, emendou a mulher. “Porque você o soltou.”

Essa história engraçada coloca juntas as duas causas que costumam desencadear os fatos da natureza e também da vida humana: a causa que determina e a causa que predispõe. O que determinou a queda do ovo foi a ação da gravidade; o que permitiu que isso acontecesse foi o fato de Galileu ter aberto a mão e soltado o ovo. Da mesma maneira, sempre há uma causa externa e uma causa interna para os fenômenos que acompanham a vida humana. O correto é dar crédito merecido a ambos os fatores, mas nós temos uma imensa tendência a valorizar um e minimizar o outro, de acordo com nossas conveniências. Nossas conquistas costumamos atribuir às nossas virtudes; já nossos fracassos não têm nada a ver com nossos defeitos, e sim com fatos alheios a nós, verdadeiras traições do destino.

Na semana em que escrevi este artigo, pude observar pelo menos três fatos que ilustram bem essa tendência de autopreservação: um querido amigo chegou com uma hora de atraso a um compromisso que tinha comigo e, após cumprimentar-me, passou a culpar o trânsito por seu atraso, e não sua já conhecida e folclórica despreocupação com os horários e com o tempo dos demais. Outro, investidor da Bolsa da Valores, perdeu dinheiro com a dança dos números e imediatamente atribuiu o prejuizo à “mão invisível do mercado” e não a sua análise incorreta das tendências. Nesses acontecimentos, eu fui o espectador, mas há pelo menos um em que fui o grande protagonista. Estou entregando este artigo com atraso e, quando a equipe de VIDA SIMPLES me ligou, suavemente, cobrando, eu comecei logo a dizer que ainda não tinha entregue porque estava viajando, os aviões andam atrasados, o excesso de trabalho estava me matando etc. etc. É o mesmo que dizer: “A culpa não é minha. A culpa é de minha vida, e eu não tenho controle sobre ela”. Pode?

Você é meu inferno

Cada pessoa tem seus próprios planos na vida. Para realizá-los, vai executando ações que modificam o mundo a seu favor. Até aí, tudo bem. O problema é que todos fazemos isso e, claro, sempre haverá a possibilidade de que aquilo que alguém faça para atingir seus objetivos entre em conflito com o projeto de outra pessoa. É por isso que o filósofo Sartre dizia que “o inferno são os outros”. Mesmo levando em consideração o mau humor do existencialista francês, temos que aceitar que ele tinha lá alguma razão, mas também não podemos deixar de atribuir a esse pensamento uma carga de transferência de responsabilidade. Às vezes as pessoas criam seus infernos particulares e atribuem a autoria a outrem.

Todos já vivemos situações em que foram as atitudes de alguém ¬ o namorado, o chefe ou o presidente da República ¬ que acenderam o fogo da panela de pressão de nossa paciência. Ok, concordo! Mas muitas vezes fomos nós mesmos que riscamos o fósforo, e os outros apenas entraram com a palha seca. Ou vice-versa.

Ninguém está livre de ter esse comportamento transferidor de responsabilidade. O problema é que ele pode se transformar em um padrão. Quem jamais, ou quase nunca, admite ter construído seus insucessos, carrega consigo os sentimentos de frustração, de impotência e de injustiça. Frustração porque vê seus planos falharem. Impotência porque, como não se atribui a culpa, sente-se incapaz de agir sobre seu próprio destino. Injustiça porque não se considera merecedor do infortúnio, uma vez que, em sua opinião, não é ele o autor do mesmo.

A psicologia, que está sempre buscando explicar o comportamento humano, cunhou a expressão “projeção” para explicar essa tendência de transferir responsabilidades que todos temos, em graus variados. E colocou a projeção em um grupo de comportamentos chamados “mecanismos de defesa”. A parte da estrutura psicológica chamada ego muitas vezes recusa-se a reconhecer impulsos de seu vizinho, o id. Essa é a parte da mente humana mais primitiva, regida pelo impulso do prazer, e que busca a satisfação imediata das necessidades e o apaziguamento das tensões. Obedecendo a esses impulsos primitivos, muitas vezes fazemos coisas, ou deixamos de fazer, que nossa própria moral reprovaria. É quando entra o ego, que é regido pelo princípio da realidade.

Quando adultos, não podemos mais simplesmente cair no choro e sapatear quando somos contrariados ou repreendidos. As crianças fazem isso porque são comandadas pelo id. Nos adultos, o ego assume o comando e a responsabilidade. Entretanto, às vezes o golpe é muito forte para um ego ainda não totalmente estruturado. Nesse caso, ele projeta a culpa para fora de si, isentando-se e, claro, incriminando alguém. Freud explicou!

Inocente ou Impotente?

Dizem que essa tendência de transferir responsabilidades é maior entre nós, latinos. O economista argentino Fredy Kofman, que é professor nos Estados Unidos, observou isso, e comenta que se interessou pelo assunto quando seu filho de 5 anos um dia dirigiu-se a ele dando origem a um diálogo bizarro, mas pra lá de esclarecedor:

— Pai, sabe aquele carrinho que você me deu ontem?
— Sim, o que tem ele?
— Pois é, pai. Ele quebrou.
— Como assim? Ele se quebrou sozinho? Então ele cometeu suicídio?
— Foi, pai. Bem diante de meus olhos. Foi horrível!

Pense em quantas vezes você mesmo, como o pequeno protagonista da história, transferiu a responsabilidade até para objetos inanimados. Eu, pessoalmente, tenho vários episódios, confesso. Quando estudei nos Estados Unidos, ainda muito jovem, consegui comprar um carro, um pequeno e econômico Ford Pinto. Certa vez, em uma das muitas freeways californianas, o valente carrinho de repente começou a tossir, sacudir-se todo, até que acabou parando. Motivo? Falta de gasolina. Maldição!, disse eu, sem saber exatamente a quem estava dirigindo o impropério.

Em menos de dois minutos um carro da polícia encostava ao meu lado, e quando o policial perguntou o motivo de estar parado em lugar proibido, eu disse algo como: “Eu não tive culpa. A gasolina acabou”. “Então de quem é a culpa?”, respondeu o agente da lei por trás de seus óculos escuros. Ele fez três coisas. A primeira deu-me alívio, a segunda vergonha e a terceira, prejuízo: levou-me até um posto de serviços para que eu providenciasse o combustível, passou-me uma descompostura por meu ato imprevidente de entrar numa freeway sem verificar o combustível e aplicou-me uma imensa multa.

Durante muito tempo eu me envergonhei do acontecido. Hoje o encaro como um imenso aprendizado. Naquele momento eu me achava inocente. Na verdade eu estava impotente. Aliás, esse é o preço da inocência ¬ a impotência. Se você deseja ter sua vida sob controle, o preço é outro ¬ a responsabilidade.

Transferir a responsabilidade aos outros traz um falso conforto momentâneo. Uma análise mais cuidadosa de qualquer acontecimento negativo em nossa vida sempre vai salientar nossa participação ativa no episódio. Muito mais do que gostaríamos de admitir. Seu namorado a deixou porque ele é um crápula ou porque você não investiu na relação nem em você mesma? O emprego não aparece porque o mercado de trabalho está ruim ou porque seu currículo não ajuda? Você não passou no vestibular porque a concorrência era muito grande ou porque você não estudou o suficiente?

É claro que sempre há, lembre-se, os fatores determinantes e os predisponentes a qualquer acontecimento. Pode ser que um fator determinante esteja fora de você, mas que você ajudou com um ou mais fatores predisponentes, isso lá você ajudou. Confesse! É verdade que o mercado está ruim, mas também é verdade que seu currículo não está ajudando. É real que o vestibular é difícil e concorrido, mas é ainda mais real que você não se preparou o suficiente. Todos sabem que os rapazes são inconstantes, mas todos sabem também que ele não foi estimulado a permanecer na relação com você, pela maneira como você se cuida e pela maneira como você o tratava. Só que ninguém diz nada.

Confessando as culpas

Em Québec, no Canadá, o jovem Otto cometeu um assassinato. Escondeu de todos, mas confessou o crime ao padre Michael Logan. Este guarda o segredo. Só que o inspetor Larrue, no decorrer das investigações, encontra indícios que incriminam o próprio padre, que é preso e encaminhado a julgamento.

Esse é o enredo de I Confess, um dos filmes menos conhecidos de Alfred Hitchcock. Bem ao gosto do velho cineasta, o filme mistura suspense com drama psicológico. Durante uma entrevista, em 1954, Hitchcock dizia que não havia gostado do resultado do filme, quando então foi interrompido pelo crítico André Bazin, que lhe disse ter percebido no filme essa forte característica humana de transferir a culpa para evitar a dor. O cineasta então se desconcertou e se surpreendeu com essa marca psicológica que ele mesmo não havia percebido em sua obra, a ponto de passar a usá-la outras vezes, como nos filmes Cortina Rasgada e Janela Indiscreta, outras de suas produções geniais.

No fim do filme, Otto confessa seu crime. É o que acontece com todos nós que, mais cedo ou mais tarde, acabamos confessando nossas culpas, culpinhas ou culponas. E não as confessamos, necessariamente, para os outros, e sim para nós mesmos, que é o que mais interessa ao nosso crescimento pessoal.

Fonte: Artigo de por Eugenio Mussak - Publicado na Revista Vida Simples

Análise_Compaixão


O despertar da compaixão

Muito se fala dela, pouco se sabe. A compaixão pode não ser exatamente o que você pensa que é: existem várias maneiras de experimentá-la, a maioria das vezes de forma surpreendente

Quando resolveu contar histórias para crianças em hospitais como voluntário da Associação Viva e Deixe Viver, o juiz desembargador Antonio Carlos Malheiros teve de superar a si mesmo. No dia escolhido para seu turno na ala de queimados de um grande hospital de São Paulo, ele colocou seu nariz de palhaço, ajeitou seu avental colorido e enfrentou a forte visão das crianças com queimaduras. Foi um grande choque. Mas em poucos minutos, porém, Malheiros já estava solto. Sabia que sua maneira de exercitar a compaixão ali era dar alegria a quem estava mergulhado no sofrimento. O que ele não podia, naquele momento, era sentir dó, piedade, “peninha”. Por isso riu, e arrancou muitos sorrisos, com as histórias que contou. Foi um verdadeiro sucesso. Quando estava quase saindo, sentiu um puxão lá embaixo no seu avental. Era um menino de uns 5 anos com o rosto quase totalmente envolto por bandagens e esparadrapos. O garoto fez um sinal para o juiz se inclinar e disse bem baixinho no seu ouvido: “Tio, pode não parecer, mas eu estou rindo...”

Aí não tem jeito, algo se desmancha no coração. Ele se torna mais tenro, mais terno. E perde sua carapaça habitual de dureza. Como não preenchê-lo de amor por aquela criança vivendo em condições tão difíceis? O sentimento da compaixão é mesmo um transbordamento amoroso. Como as lágrimas, que rolam pelos olhos por causa da emoção, ela transborda diretamente do coração, só que em direção ao mundo.

Amor e sabedoria

Compaixão é amor, sim. Mas uma espécie particular de amor, que pode ser vivenciado de diferentes maneiras. Pode ser passando por cenas como essa descrita no começo do texto. Ou exercitando a paciência, a tolerância, um estar perto em silêncio. A compaixão pode ser praticada até com socos e palavrões, como os bombeiros são obrigados a fazer quando têm de dominar pessoas em pânico para poder salvá-las. Ter compaixão é olhar para o outro e ver o que ele precisa naquele momento. Pode ser um abraço apertado, uma bronca, uma orientação, uma ajuda material. A única condição essencial é que qualquer uma dessas ações parta do coração e que corresponda ao que é preciso naquele instante. Mas compaixão, diferentemente do que nossa tradição de catolicismo lusitano pode indicar, está a léguas da pena. Quem tem pena, muitas vezes, não ama verdadeiramente.

A pergunta que se deve fazer ao sentir a compaixão nascendo dentro do peito é: “De que forma posso ajudar agora?” E a resposta depende tanto de sentimento quanto de raciocínio. “Ter compaixão significa aliar amor e sabedoria”, disse o mestre Geshe Lhakdor, um especialista em filosofia budista que esteve no Brasil. Com palavras tão simples, ele dá a chave de ouro de como se pode exercitar a compaixão. Porque é preciso sentimento, sim, mas também um certo domínio da situação e inteligência. De outra maneira, ficaríamos só chorando ao lado de quem está sofrendo. Bombeiros e salva-vidas não salvariam pessoas, enfermeiras não conseguiriam cuidar direito de seus pacientes, acompanhantes de pessoas doentes entrariam na mais profunda depressão. “Para ajudar o outro, compartilhar sua dor, é preciso estar inteiro, íntegro, e não caindo aos pedaços, emocionalmente falando”, diz a psicóloga Ana Maria Silva, que dá suporte aos contadores de histórias da Associação Viva e Deixe Viver. A entidade tem um programa rigoroso, severo na formação de seus voluntários: de 600 candidatos iniciais, podem ser aprovados apenas 60, justamente os que têm mais condições psicológicas para exercer a compaixão de forma constante e militante. Isto é, de saber avaliar o que realmente a outra pessoa precisa. Em outras palavras, é mais prudente não praticar a compaixão de maneira continuada quando ainda não foram resolvidas grandes questões internas ou, então, quando se deseja ajudar apenas para tentar suprir uma carência afetiva. “Primeiro, é necessário ajudar a si mesmo. Mais inteiro, pode-se começar a pensar em ajudar os outros de forma mais contínua e responsável”, diz.

Isso quer dizer que você vai ter de adiar para sempre esse estar próximo ao sofrimento do outro? Afinal, somos humanos, e nunca estamos totalmente resolvidos... Não, o estar bem e inteiro não pode se transformar numa desculpa ardilosa para nosso egoísmo habitual. Pontualmente, todos nós podemos estar abertos para a dor alheia. Estar ao lado de um amigo em um momento difícil, abrir a casa para um parente que precisa de apoio, participar de uma ação voluntária numa emergência, passar a noite no hospital com alguém, isso todo mundo pode fazer. Mas, para exercitar a compaixão de maneira mais continuada, precisamos, sim, estar mais preparados para poder atender a esse chamado do coração de um jeito mais preciso.

Saber como ajudar

Em seu livro Por um Fio, o médico e escritor Drauzio Varella confessa que durante muitos anos se deixou contaminar pelas reações dos doentes, sentindo-se “imobilizado” emocionalmente e incapaz de oferecer seus préstimos de médico à altura. Tudo porque não conseguia deixar de pensar no sofrimento pelo qual seus pacientes estariam passando. Com o tempo, Drauzio aprendeu a não se paralisar de angústia diante de alguém que estivesse sofrendo. Isso não ajudaria em nada o paciente.

Tem gente que sabe isso intuitivamente, sem precisar treino, como a psicóloga carioca Ana Helena Vieira, que enfrentou, durante quase um ano, um entra-e-sai de hospital por causa da doença do marido. Numa das vezes, teve de esperar por uma cirurgia que durou oito horas. Ela podia ficar roendo as unhas na sala de espera. Mas como sabia que a operação, embora demorada, não tinha grande risco, resolveu almoçar num restaurante charmoso ali por perto, assistir a um filme leve, bater perna nas imediações e voltar radiante para o pós-operatório do marido, que lhe exigiria paciência, boa disposição física e muita dedicação. “No começo, sentia culpa. Depois, sabia que sentir-me bem era fundamental para eu poder cuidar e dar a atenção devida a ele.” Quanto sofrimento inútil poderia ser jogado fora se a gente soubesse que é possível praticar a compaixão desse jeito, com tanta leveza e harmonia...

Outras pessoas precisam se autoanalisar, ou contar com terapia, antes de resolver ajudar mais sistematicamente. Foi o que aconteceu com as 15 mulheres que participam de um site com informações sobre câncer de mama. Todas elas passaram pela doença e se conheceram num grupo virtual que tratava do assunto. Ali compartilhavam suas dúvidas, medos e esperanças. Foi quando decidiram fazer um site para ajudar mulheres como elas. Só que uma coisa era desabafar e trocar impressões entre si, como faziam no grupo virtual, outra era começar tudo de novo e ajudar objetivamente, com informação qualificada, a quem passava pelo câncer. Tiverem de reavaliar a si mesmas e sua relação com a doença e estabelecer a melhor maneira de colocar a questão mais racionalmente, ainda que com muito amor. Um duro aprendizado, mas que elas exercitam voluntariamente todos os dias.
E, sim, há várias maneiras de se preparar para exercer a compaixão, até as mais controvertidas. Na antiga série de televisão M.A.S.H., o cirurgião-chefe de um acampamento hospitalar do Exército americano usava sua rebeldia e senso de humor para manter sua sanidade em meio a carnificina geral da Guerra da Coréia. Servia-se do mercado negro local para garantir o consumo de uísque entre os médicos nos horários livres, subornava oficiais para conseguir férias para seus ajudantes mais estressados, aprovava bonés e bermudas fora do uniforme para alegria dos enfermeiros. Tudo para poder suportar o calor úmido de 40 graus de uma floresta tropical, mosquitos, doenças infecciosas e atender, com compaixão, pacientes destroçados por explosivos. Condenar, quem há de?

Os cinco tipos

Mas compaixão não é uma coisa só, um sentimento inequívoco que se apresenta de apenas uma maneira. O lama budista gaúcho Padma Samten conta como se manifestam os cinco aspectos diferentes da compaixão, relacionando-os às cinco cores (ou energias) emanadas pelos budas primordiais. “Na compaixão azul, por exemplo, olhamos para quem sofre e o acolhemos com ternura”, diz ele. “E perguntamos interiormente: ‘Quais as potencialidades e qualidades escondidas nesse ser? Como ele pode desabrochar?’ E o ajudamos a seguir essa direção”, explica.

A compaixão amarela está ligada à generosidade e à riqueza. “Então, quando vamos ajudar alguém, nós podemos não somente ouvi-lo e entendê-lo, como também podemos fazer algo a mais, dando oportunidades ou oferecendo meios materiais para que a pessoa possa sair daquela situação difícil”, afirma o lama. É uma ajuda prática, que pode envolver dinheiro, comida ou trabalho.
Na compaixão vermelha, nossa principal atitude é tentar despertar a força interior da pessoa que está passando por uma dificuldade. É dar estímulo, promover sua alegria ou até aproveitar a raiva dela para direcionála na construção de uma nova vida. “Às vezes não basta dar acolhimento e condições materiais, se a gente não estimula o despertar do eixo interno emocional do outro, com entusiasmo e um referencial positivo do que pode acontecer no futuro”, diz o lama.
A compaixão verde é a do grito, da bronca, do basta. “Se vemos uma criança puxando uma toalha com uma caneca de leite fervente em cima e não gritamos, ela pode se queimar gravemente. Quando gritamos ‘Não faça isso!’, nós interrompemos uma ação negativa, para bem da pessoa. Isso também é compaixão”, afirma o lama Samten. A psicóloga paulista Maria Cândida Amaral afirma que isso é muito comum entre as famílias. “A compaixão pode ser exercida com brabeza, isto é, com-paixão, com emoção. E isso não tem nada a ver com sentimentos melosos”, diz. Qualquer mãe sabe disso. Às vezes o grito tem de ser forte, a bronca tem de ser enérgica para surtir algum resultado. A mãe pode fazer isso com o coração apertado, mas sabe que tem de fazer e que, ao se omitir, cometerá uma falha na educação dos seus filhos.
A última forma de compaixão, segundo prega o budismo, é a branca. “É a culminância desse sentimento. Nela oferecemos nossa própria natureza essencial, que é luminosa, amorosa e compassiva. Porque ainda que eu acolha com ternura, ainda que propicie meios, ainda que procure despertar a coragem da pessoa e que impeça sua negatividade, se não oferecer amor, todas as outras formas de compaixão ficam quase sem sentido”, conclui o lama.

Curar, aliviar, sentir

Bom, até aqui, vimos que existem diferentes formas de exercitar a compaixão, que esse sentimento pode ser vivenciado por qualquer um e que, para ser experimentado de uma maneira mais continuada, exige equilíbrio interno e, talvez, uma preparação. O budismo, mais uma vez, oferece um método excelente para esse treino: a meditação tong-len. Nessa prática, você inspira todas as dores e sofrimentos do outro, que às vezes passa pela mesma dor que você, para expirar esperança, alívio, amor e alegria. Quando praticamos o tong-len, fazemos um trabalho intenso com o ego, pois temos uma resistência natural a inspirar o sofrimento alheio. Até chegar um momento em que isso não tem mais importância.

A gerente administrativa paulista Maria de Lurdes Assunção Ferrari, por exemplo, perdeu o filho de 21 anos num acidente de automóvel e fez a prática para se recuperar da própria dor. “Meu sofrimento era tão grande, tão imenso, e me sentia tão impotente, que minha única saída era me irmanar com quem passava por isso. Inspirava a dor de todas as mães do mundo que tinham perdido um filho naquelas condições e expirava aceitação, paz, alívio”, conta. Não era mais seu infinito sofrimento, mas o sofrimento de todas as mães que cabiam na sua dor que, por sua vez, já não conhecia limites. Aí o coração se expande de forma verdadeira. Desaparece a separação entre nós e os outros, e tudo se torna apenas uma coisa. O sofrimento passa a fazer parte de um todo, não é mais apenas individual e tão pesado. Ao fazer a prática pelas mães que perderam seus filhos, Maria de Lourdes também a realizava por si mesma, pois estava irmanada na mesma dor. A aceitação e a serenidade que desejava às outras mulheres aos poucos foi tomando conta de seu próprio coração. “A união com outras mães era tão profunda que pensava que eu não existia mais, só aquele pulsar cheio de amor, ao ritmo da respiração.”
Hoje, muitos voluntários budistas ensinam a prática do tong-len para quem se sente imerso em sua dor, ou mesmo para quem está imobilizado numa cama. É uma prática que exige um coração compassivo, tanto que há 40 anos só era praticada por monges.
Também podemos fazer o tong-len por nós mesmos. Aliás, essa é a melhor maneira de começar: inspirando todos os nossos sofrimentos e mágoas e expirando purificação, alívio e perdão. Simon Luna, um dos maiores instrutores da tradição Shambhala, ensinava que podemos aprender a curar a criança ferida que temos em nosso coração com a prática do tong-len, inspirando sua dor e expirando acolhimento, carinho, ternura num cálido abraço. Pois quem mais precisa de amor e compaixão, nos passos iniciais desse longo caminho, somos, afinal de contas, nós mesmos.

Para saber mais
Livros:• A Alegria de Viver, Yongey Mingyur Rinpoche, Campus-Elsevier• Bondade, Amor e Compaixão, Dalai Lama, Pensamento-Cultrix• Comece Onde Você Está, Pema Chödron, Sextante• Por um Fio, Drauzio Varella, Companhia das Letras

Fonte: Artigo de Liane alves publicado na Revista Vida Simples

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

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